Performance apresentada por Sandra Coelho no 3o Provocações Urbanas

Quando fiz a ação de rua Cidade e Alma estava na 36ª semana de gestação, a espera do meu Caetano. Pensar uma performance nova é sempre um movimento de buscar relação com minhas ações pregressas e de algum modo, dar sequencia a minha pesquisa de performance e rua. Porém, nesta ocasião, me encontrava bastante sensibilizada, em um estado diferente dos anteriores e me autorizei a fazer algo diferente, mais introspectivo. Considerando o fato de estar gestando uma criança, comecei a pensar de que forma elas se relacionam e existem dentro das cidades. Imaginei as ruas como grandes telas de desenhos, filmes monocromáticos, em como é ser pequeno e transitar pelas ruas, ser levado, conduzido, e de como este estado é transitório, pois logo as crianças crescem e se transformam nos adultos que ali estarão alimentando este imenso caldeirão de cimento. Também pensei na relação orgânica que as crianças tem com o chão, e de como nas cidades isso praticamente inexiste.
Considerei o fato de estar com menos mobilidade, mais lenta, mais ligada a terra, ao mínimo movimento e criei uma ação que aconteceu no chão. Me dispus sentada, tal qual uma criança espontaneamente o faz e comecei a desenhar imagens simples com farelo tingido (preparado semanas antes) buscando similaridade com os traços infantis. Utilizei quatro diferentes tipos de desenhos, feitos em impressora 3D especialmente para esta ação. Escolhi o centro de Itajaí e Balneário Camboriú para fazer os desenhos em função de terem maior trânsito de pessoas e também por fazerem parte da minha história como Performer.
O nome Cidade e Alma remete a um livro e a um conceito de James Hillmam (1993) que leva a reflexão psicológica para além dos limites dos consultórios dos analistas. James dessubjetiviza o enfoque puramente ecológico do mundo, e inclui a urbanidade como campo válido de experiências humanas e busca a sensibilização para o que nos cerca em todos os espaços públicos que estão a nossa volta. A alma do mundo e a alma do homem. Saí da clausura do meu outro fazer (Psicologia), me apropriei desse conceito (ou dessa forma de reflexão), e adentrei as ruas munida de um fazer lúdico e efêmero.
Desenhei e colori a os cantos de algumas ruas, criei contornos, paragens, rabiscos. Dialoguei com curiosos. Fui olhada de cima, ignorada, admirada, questionada, fotografada, elogiada e também não- vista. Este é um script conhecido de quem é artista de rua. Me apropriei das ruas, dos elementos que dispunha, do movimento delicado, da minha criança interior e criei cenários que em pouco tempo se foram com o vento.
As ruas das cidades é onde me sinto mais livre, é onde meu fazer artístico encontra diálogo e onde, por mais insólito que ainda pareça a linguagem da Performance, encontro sensibilidade e compreensão. Mais do que um conceito ou uma ideia, a Performance é um ato político. Estar na cidade numa ação não comercial, devotada a arte é uma forma de resistência, de contra-fluxo. Nas cidades que estão a serviço das relações comerciais, do trânsito, que ditam os ritmos, as direções, onde cortam-se árvores e plantam-se prédios, a arte mais do que nunca, se faz necessária e vital.
HILLMAN, J. Cidade e Alma. Studio Nobel, São Paulo. 1993